[PÚBLICO A SAÚDE] Especialistas avaliam primeiros estudos sobre a variante Mu da covid-19

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A variante Mu (ou B.1.621) do coronavírus apresentou os dois primeiros casos no Ceará, segundo a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) em moradoras de Fortaleza, com idades de 45 e 47 anos, que haviam tomado uma dose da vacina e realizaram viagem para a Colômbia, pais onde essa variante apareceu inicialmente. As mulheres desembarcaram na capital cearense no dia 6 de julho com sintomas gripais, foram a unidades de saúde e cumpriram o autoisolamento durante a infecção. Essa variante é monitorada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e está classificada como de “informação”, isto é, está em avaliação por especialistas, quanto ao seu nível de infecção e de alastramento.

Para o professor Edson Teixeira, do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia de Recursos Naturais da Universidade Federal do Ceará (UFC), as variantes são na verdade o acumulo de mutações que o vírus sofre, por isso quando se tem alguma alteração que cause preocupação, esse grupo de mutações passa a ser chamado de variante. “A OMS classifica as variantes em de preocupação e de informação. As de preocupação são aquelas com capacidade maior de transmissão e de letalidade, são elas: a Afa, a Aeta, a Gamma e a Delta. Já a variante Mi ou Um, como estão chamando, é uma variante de informação. No momento, temos que observar esses casos, observar se eles aumentam, mas não pode ser considerada ainda uma variante de preocupação”, ressalta.

Para Edson Teixeira, a variante Mu não é imune as vacinas, como nem mesmo as variantes de preocupação são. Mas entende que de qualquer forma, mesmo não sendo imune as vacinas, a preocupação é a mesma em relação aos cuidados, ao uso de máscara, lavagem das mãos, evitar aglomerações. Pontua que as vacinas tem demonstrado, até agora, uma eficácia alta contra todas as variantes, sejam elas de preocupação ou de informação. “Caso a pessoa venha a se infectar, ela só vai saber depois qual a variante pois as análises genéticas ocorrem com um tempo muito demorado aqui no Brasil, mas a terapêutica a ser utilizada em casos sintomáticos é a mesma que é utilizada em todos os casos de covid 19”, afirma.

Classificação

Já o consultor em infectologia da Escola de Saúde Pública, Dr. Kenny Colares pontua que essa variante Mu ou Mi é mais uma das dezenas já identificadas pela ciência, que são monitoradas pelos cientistas e especialistas. “Dessas, algumas estão em um ranking mais alto porque já demonstraram sua capacidade de causar problemas por serem mais transmissíveis, por serem mais agressivas, que são as quatro – Alpha, Beta, Gamma de Delta -, e existem algumas que estão sob observação, que são as variantes de interesse, que já apresentam algum indicio de que  podem representar problemas, como é o caso da Mu”, frisa.

Segundo Kenny, a variante Mu acaba de subir do patamar baixo para o intermediário para que seja avaliada, devido ao grande número de casos e da epidemia que inicialmente ela causou na Colômbia, mostrando uma capacidade muito grande de causar infecção e doença. Outra razão dessa observação maior é com relação a sua capacidade de driblar os sistemas de defesa das pessoas. “Quando a pessoa é infectada e se cura, desenvolve uma defesa natural ao vírus, e quando nos vacinamos estamos treinando o nosso organismo também a se defender. Mas sabemos que essa proteção não é de 100%, sabemos que pessoas que tiveram covid podem ter novamente e pessoas vacinadas também, mas com bem menos chances de gravidade”, avalia.

Ele observa que das quatro variantes, a que apresentou maior letalidade e capacidade de driblar o sistema de defesa das pessoas foi a variante Beta, descoberta na África do Sul, mas também foi a que menos se espalhou. Salienta que os primeiros estudos sobre a variante Mu, afirmam que ela talvez possa ter uma capacidade maior de driblar nosso sistema de defesa que a variante Beta. “Estamos começando a conhecer, mas por outro lado, ela não apresenta a mesma capacidade de retransmissão da Alpha e da Delta, e com isso talvez sua ameaça seja menor. Como isso tudo é muito recente, estamos observando e aprendendo se ela representa risco ou não, como ocorreu com outras. Mas não há necessidade de entrar em pânico, pois essas são informações que precisam ser confirmadas,” frisa.

O infectologista ressalta que a ciência já obteve muitos avanços com relação ao combate a covid-19, pois conseguiu reduzir a capacidade de ela se espalhar e de causar óbitos, Mas entende que essa batalha vai continuar. “Creio que vamos combater esse vírus por muito tempo e talvez ocorra o que aconteceu com a gripe, que mesmo 100 anos depois da gripe espanhola ainda convivemos com ela, claro que com melhores recurso. Talvez com a covid-19 ocorra o mesmo, isto é, teremos capacidade de combater mas não para eliminar,” comenta.

Segundo ele, a Vacina continua sendo a ferramenta mais eficaz de proteção. Entende ser necessário continuar a usar mascara, pois países que deixaram de recomendar isso tiveram que voltar atrás. “Devemos continuar com o distanciamento, com as mudanças comportamentais, realização de testes, isolamento de pessoas positivadas e as pessoas que tiveram contatos com infectados, Tudo isso continua valendo e esses recursos vão permitir que consigamos progredir e sobreviver nesse ambiente por longos e longos anos”, concluiu.

Fonte: CMFor por Marcelo Raulino – Foto: Reuters/Agência Brasil

 

Rodrigo Kawasaki

Rodrigo Kawasaki

Editor-chefe da Público A.